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Bonitinha, mas ordinária! A invasão de uma planta ornamental nos carnaubais nordestinos

10 de setembro de 2015

Texto escrito por: 

Maryane Ferreira, Raphaela Batista, Rafael Domingos, Raul Peixoto (alunos do curso de Ecologia de Ecossistemas [2015-1] do PPGEco-UFRN)

Atualmente a invasão biológica, ou bioinvasão, é a segunda maior causa da perda de biodiversidade global, atrás somente da íntima relação entre os processos de degradação, fragmentação e perda de habitats. Tal fato pode alterar a dinâmica e o funcionamento dos ecossistemas e sua habilidade de prover bens e serviços necessários para desenvolvimento das sociedades.

A bioinvasão tem acarretado variados impactos nas matas de carnaúba no Nordeste Brasileiro. A carnaúba (Copernicia prunifera (Miller) H.E. Moore – Arecaceae), que é a espécie dominante desses ecossistemas, é uma palmeira NATIVA dessa região que está ameaçada por uma espécie EXÓTICA INVASORA, popularmente conhecida como unha-do-cão (Cryptostegia madagascariensis Bojer ex Decne. – Apocynaceae). Apesar do nome infernal, a “bonitinha” possui flores de coloração que variam de róseo a violeta. Devido à beleza de suas flores, ela foi trazida da ilha de Madagascar, na África, para nossa Terra Brasilis a fim de ser utilizada como planta ornamental.

A unha-do-cão, planta arbustiva e trepadeira oportunista, apresenta vários atributos que a tornam uma invasora em potencial e que se estabeleça rapidamente ao longo de cursos d’água, florestas costeiras, pastos, bordas de florestas e áreas perturbadas. Espécies invasoras são como aquele parente chato que chega de outra cidade e toma conta do pedaço, é o que acontece com a unha do cão. Essa espécie produz uma grande quantidade de sementes que se dispersam com facilidade através do vento, água e presa à pele de animais. Além disso, essas sementes tem uma alta taxa de germinação (cerca de 90-95%) e permanecem viáveis por mais de um ano. São essas características que fazem com que ela tome conta do pedaço nos carnaubais sendo prejudicial a esses ecossistemas.

A unha-do-cão afeta principalmente áreas de vegetação associadas a cursos de rios, riachos e outros corpos d´água superficiais, mais especificamente as Matas de Carnaúbas (Floresta Mista Dicótilo-Palmácea), modificando o ecossistema local. O bom desenvolvimento da unha-do-cão nesses ambientes, aliado às suas potenciais características de invasora, faz com que essa espécie esteja prejudicando as populações de carnaúba. A competição entre as espécies por luz faz com que a invasora comporte-se como trepadeira oportunista, subindo pelo caule da carnaúba e cobrindo sua a copa, impedindo a passagem de luz e matando-a por sombreamento excessivo.

Figura 2 - Esquema: o que são espécies nativas, exóticas e invasoras. Adaptado de Begon et al (2010).

Figura 2 – Esquema: o que são espécies nativas, exóticas e invasoras. Adaptado de Begon et al (2010).

O fato de duas espécies sobreporem seus nichos implica no prejuízo para uma delas ou mesmo sua exclusão do sistema ecológico. Esse processo é mediado por uma questão de maior eficácia no aproveitamento de recursos e por um fitness mais apropriado ao desenvolvimento e estabelecimento da espécie em determinado ambiente. Esse caso pode ser claramente exemplificado pela interação entre a carnaúba e a unha-do-cão, a qual comporta-se como uma competidora superior e, gradualmente, está dizimando as populações da espécie nativa.

Figura 3- Perca do Nilo, espécie invasora que causou a extinção de mais de 200 espécies de peixes nativos na África. Fonte: Lowe et al (2000).

Figura 3- Perca do Nilo, espécie invasora que causou a extinção de mais de 200 espécies de peixes nativos na África. Fonte: Lowe et al (2000).

E você deve estar se perguntando: o que eu tenho a ver com isso? Bem, se você gosta de usar batom ou de seu carro com um brilho espetacular, é melhor começar a se preocupar. A cera que é produzida através do pó extraído da folha da carnaúba é utilizada em cosméticos, polimentos e vernizes, isolamento de chips de computadores, cápsulas de comprimidos, construção, artesanato e até mesmo conservação de outros alimentos (Saiba mais!).

Além disso, a carnaúba desempenha outros importantes papéis nessas florestas e na Caatinga. Por se tratar de uma espécie-chave, a diminuição drástica de sua abundância ou mesmo sua extinção poderá ter fortes impactos, como a redução da maior parcela da produtividade total do ecossistema e a ocorrência de extinções de espécies dependentes da carnaúba. Portanto, a alteração da estrutura de suas populações pode comprometer o bom funcionamento dos ecossistemas, os serviços ambientais associados e modificar efetivamente a paisagem. A dinâmica hidrológica dos ambientes ocupados por carnaúba também pode ser prejudicada. Essa espécie é a guardiã dos espelhos d’água e lençóis freáticos da região, auxiliando no controle da perda da água, recurso escasso no semiárido, por diminuir as taxas de evapotranspiração. A palmeira também ajuda no melhoramento da qualidade da água, auxiliando na depuração da matéria orgânica dos rios, e por estar associada a áreas de várzeas a carnaúba compõe a vegetação ciliar de rios, prevenindo a erosão das margens e o assoreamento dos rios e riachos associados.

Glossário

Glossário

A teia trófica também pode ser influenciada, uma vez que sua semente serve de alimento para a fauna local, como morcegos, aves e lagartos. As comunidades humanas que utilizam a folha da palmeira para diversas finalidades também são diretamente afetadas pela invasão da unha-do-cão nesses ambientes, uma vez que a renda de centenas de famílias está associada a essa atividade extrativista. Todos esses papéis ecológicos e de serviços ambientais desempenhados pela carnaúba estão comprometidos pela bioinvasão da “bonitinha” no semiárido e representa uma ameaça desastrosa para o funcionamento do ecossistema local, logo podemos realmente dar um peso maior ao adjetivo “ordinária”.

Figura 4 - Tronco de uma carnaúba coberto pela Unha de cão. Fonte: Rafael Domingos.

Figura 4 – Tronco de uma carnaúba coberto pela Unha de cão. Fonte: Rafael Domingos.

Então, é bom pensar duas vezes antes de trazer aquela linda espécie exótica para o seu jardim, quintal ou aquário, pois ela pode pular a cerca e ficar fora de controle. O uso de espécies exóticas também não pode ser condenado de cara, mas a utilização desses organismos deve ser feita de forma controlada e com o necessário conhecimento sobre sua biologia. Melhor é buscar para nossos projetos paisagísticos (ou econômicos), alternativas que façam uso de espécies nativas, encontrando beleza e utilidade no que é da terra e assim proteger nossos ecossistemas de grandes desequilíbrios, valorizando também a prata da casa.

Autores:

Maryane Ferreira (Mestranda; PPG Ecologia – UFRN)

Raphaela Batista (Doutoranda; PPG Ecologia – UFRN)

Rafael Domingos (Doutorando; PPG Ecologia – UFRN)

Raul Peixoto (Mestrando; PPG Ecologia – UFRN)

Supervisão:

Adriano Caliman Ferreira da Silva

Edição:

André Megali Amado (PPGEco/UFRN – DOL)

Referências:

Begon, M.; Townsend, C. R. & Harper, J. L. 2006. Ecology: From individuals to ecosystems. Blakwell Publishing, Oxford.

Cardinale, B.J., Duffy, J.E., Gonzalez, A., Hooper, D.U., Perrings, C., Venail, P., Narwani, A., Mace, G.M., Tilman, D., Wardle, D.A., Kinzig, A.P., Daily, G.C., Loreau, M., Grace, J.B., Larigauderie, A., Srivastava, D., Naeem, S. 2012. Biodiversity loss and its impact on humanity. Nature, 486:59-67.

Lowe S., Browne M., Boudjelas S., De Poorter M. 2000. 100 of the world’s worst invasive alien species. A selection from the Global Invasive Species Database. Published by the Invasive Species Specialist Group (ISSG) a specialist group of the Species Survival Commission (SSC) of the World Conservation Union (IUCN), 12 pp.

Nogueira, D.H. 2009. Qualidade e potencial de utilização de frutos de genótipos de carnaubeira (Copernicia prunifera) oriundos do Estado do Ceará. Tese (Doutorado em Agronomia). Departamento de Fitotecnia e Ciências Ambientais, Universidade Federal da Paraíba, Areia/PB, 134p.

Oliveira Filho, S.F.O. 2003. Identificação das áreas degradadas no município de Tabuleiro do Norte – CE, com ênfase às formações de floresta dicótilo/palmácea. Dissertação (Mestrado em Geografia). Universidade Federal de Pernambuco. CFCH. 132p.

Silva, J.L., Barreto, R.W., Pereira, O.L. 2008. Pseudocercospora cryptostegiae-madagascariensis sp. nov. on Cryptostegia madagascariensis, an exotic vine involved in major biological invasions in northeast Brazil. Mycophathologia, 166:87-91.

Souza, J.A.N., Rodal, M.J.N. 2010 Levantamento florístico em trecho de vegetação ripária de caatinga no rio Pajeú, Floresta/Pernambuco-Brasil. Caatinga, v. 23, n. 4, p. 54-62.

Baixando a guarda: Como nós influenciamos as invasões biológicas

29 de junho de 2015

Texto escrito por: 

Isabela Oliveira, Júlia Tovar, Leonardo Teixeira & Marcos Brito (alunos do curso de Ecologia de Ecossistemas [2015-1] do PPGEco-UFRN)

O escritor francês Victor Hugo certa vez proferiu: “Que triste é pensar que a natureza fala e a espécie humana não a escuta”. Essa afirmação pareceu uma verdade imutável por séculos e, assim, as atividades humanas causaram grandes modificações ambientais globais que, por sua vez, refletiram no clima e na biodiversidade. Contudo, hoje, ao reconhecermos as consequências de nossas ações na natureza, damos o primeiro passo na busca por soluções.

Dentre os impactos causados pelo ser humano no planeta, destacam-se as mudanças climáticas, o aumento na emissão e deposição de nitrogênio nos ecossistemas e a perda de habitats. Tais ações afetam a distribuição das espécies e, portanto, podem influenciar as invasões biológicas. Mas, o que são espécies invasoras? São organismos que se instalam e proliferam em ecossistemas onde não existiam anteriormente, podendo causar prejuízos às comunidades nativas e ao ambiente. Possuem alta taxa de dispersão, adaptação e crescimento, principalmente pela ausência de predadores naturais (1, 2, 3). Você pode pesquisar sobre espécies invasoras na sua região clicando aqui.

Mas como exatamente estamos “baixando a guarda” e facilitando a invasão de espécies? Para responder a essa pergunta devemos esclarecer que o sucesso das espécies invasoras depende, também, da “saúde” dos ambientes invadidos (4, 5). Por exemplo, algumas pesquisas mostram que ecossistemas que tiveram decréscimo de sua diversidade por causa de agentes estressores se tornaram mais suscetíveis às invasões biológicas (6).

A temperatura é um fator limitante para a sobrevivência, crescimento e reprodução de plantas e muitos animais. Segundo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) espera-se que o aumento na liberação de gases estufa, sobretudo pelo desmatamento e pela queima de combustíveis fósseis, faça com que a temperatura global aumente de 1 a 3,5 °C no próximo século. Isto irá influenciar diretamente na distribuição das espécies, podendo estimular invasões de organismos tropicais para regiões temperadas (7). Além das mudanças climáticas globais, alterações nos ciclos biogeoquímicos podem agir sinergicamente e contribuir para o sucesso das invasões biológicas.

                                        Caixa 1: Os ciclos biogeoquímicos e a ação humana.

Caixa 1

As alterações causadas nos ciclos biogeoquímicos, principalmente do nitrogênio (N) e do fósforo (P) causam mudanças na composição de espécies, gerando perdas de biodiversidade em ecossistemas terrestres, como em florestas. Além disso, tais alterações afetam a qualidade dos ecossistemas aquáticos adjacentes, levando à eutrofização artificial de lagos. Isto os torna mais suscetíveis às invasões por espécies exóticas, especialmente aquelas mais eficientes no uso dos habitats e exploração dos recursos no ambiente modificado pelos agentes estressores.

Figura 2: Representação esquemática do processo de eutrofização (Fonte:http://pt.slideshare.net/nunocorreia/alterao-da-qualidade-da-gua-426935).

Figura 2: Representação esquemática do processo de eutrofização (Fonte:http://pt.slideshare.net/nunocorreia/alterao-da-qualidade-da-gua-426935).

Agora que sabemos como podemos facilitar as invasões, devemos nos questionar sobre os motivos de tamanha preocupação. Espécies invasoras podem causar sérios impactos no funcionamento dos ecossistemas. Uma espécie nova, eficiente na competição por recursos, alcançando um ambiente que não está saudável, pode levar à extinção local de populações nativas. Este processo pode causar rompimento de interações biológicas importantes para a manutenção da estrutura ecológica (8). Além disso, os invasores podem ter efeitos na economia e na saúde pública (veja exemplos de espécies invasoras e suas consequências no quadro). Portanto, são vários os motivos para ficarmos preocupados com as invasões biológicas e sua influência no futuro do planeta. Nossas ações têm impacto direto na distribuição das espécies na Terra. Dessa forma, é de nossa responsabilidade tentar reverter ou diminuir os impactos causados, seja criando novos métodos produtivos, de manejos, e leis ambientais. A execução de programas de Educação Ambiental se tornam cada vez mais úteis para sensibilizar a sociedade sobre tais necessidades.

Quadro 1: As espécies invasoras mais bem sucedidas no mundo e alguns de seus efeitos (9).

Quadro 1: As espécies invasoras mais bem sucedidas no mundo e alguns de seus efeitos (9).

Autores:

Isabela Oliveira, Júlia Tovar, Leonardo Teixeira & Marcos Brito (alunos do curso de Ecologia de Ecossistemas [2015-1] do PPGEco-UFRN)

Supervisão: Renata Panosso (Departamento de Microbiologia e Parasitologia; PPGEcologia-UFRN)

Edição: André M. Amado (Departamento de Oceanografia e Limnologia; PPGEcologia-UFRN)

Referências Bibliográficas

  1. Rejmanek M. “What makes a species invasive?” In: Pyšek P., Prach K., Rejmanek M. & Wade M. (eds.) Plant Invasions. SPB Academic Publ., Amsterdam, p. 3-13, 1995.
  1. Richardson D.M., Pyšek P., Rejmanek M., Barbour M.G., Panetta D. & West C.J. “Naturalization and invasion of alien plants: concepts and definitions”. Diversity and Distributions, Vol. 6, p. 93-107, 2000.
  1. Simberloff D., Martin J.L., Genovesi P., Maris V., Wardle D.A., Aronson J., Courchamp F., Galil B., García-Berthou E., Pascal M., Pyšek P., Sousa R., Tabacchi E. & Vilà M. “Impacts of biological invasions: what’s what and the way forward.”Trends in Ecology &Evolution, Vol. 28, N° 1, p. 58-66, 2013.
  1. Thuiller W., Richardson D.M. & Midgley G.F. “Will climate change promote alien plant invasions?” Ecological Studies, Vol. 193, W. Nentwig (Ed.) Biological Invasions, Springer-Verlag Berlin Heidelberg, p. 1-16, 2007.
  1. Macdougall A.S. & Turkington R. “Are invasive species the drivers or passengers of change in degraded ecosystems?” Ecology, Vol. 86, N° 1, 2005, p. 42-55.
  1. Didham R.K., Tylianakis J.M., Gemmell N.J., Rand T.A. & Ewers R.M. Interactive effects of habitat modification and species invasion on native species decline. Trends in Ecology and Evolution, Vol. 22, N° 9, p. 489-496.
  1. Vitousek P.M., D’Antonio C.M., Loope L.L. & Westbrooks R. “Biological invasions as global environmental change.” American Scientist, Vol. 84, p. 468-478, 1996.
  1. Gurevitch J. & Padilla D.K. “Are invasive species a major cause of extinctions?” Trends in Ecology and Evolution, Vol. 19, N° 9, p. 1-5, 2004.
  2. Lowe S., Browne M., Boudjelas S., De Poorter M. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species. A selection from the Global Invasive Species Database. The Invasive Species Specialist Group (ISSG), the World Conservation Union (IUCN), 12pp, 2000.