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A natureza é imortal?

10 de agosto de 2015

Texto escrito por: 

Maria Lenice Ventura Diniz; Clarice de Andrade Cordeiro da Silva; Álvaro Carvalho de Lima (alunos do curso de Ecologia de Ecossistemas [2015-1] do PPGEco-UFRN)

Imagine um mundo sem florestas, sem animais, onde quase todas as espécies estivessem extintas e com o mínimo de pessoas lutando para que ao menos as espécies usadas na alimentação (milho, soja, feijão) continuassem existindo. Não, você não está numa cena do filme ‘Interestelar’, mas saiba que daqui a alguns anos isso pode virar realidade, e você vai entender o porquê…

O termo extinção soa tão forte para você como ‘fim dos tempos’ ou ‘teoria do caos’? Afinal, qual é a consequência da extinção de espécies? Como isso afeta o funcionamento dos sistemas ecológicos? A extinção é um processo natural que sempre ocorreu na história da Terra e mais de 99% das espécies que já existiram estão hoje extintas. Porém, atualmente, as espécies estão desaparecendo de 100 a 1.000 vezes mais rápido que em épocas anteriores à existência do Homem na Terra e para cada 10.000 espécies que se extinguem, somente uma nova espécie é originada por mecanismos evolutivos de especiação. Portanto, a velocidade na perda da biodiversidade atual é muito maior do que àquela com que a natureza consegue compensar e/ou se adaptar.

Na natureza muitas espécies são chamadas ‘redundantes’, pois desempenham funções semelhantes e exercem um mesmo efeito num ecossistema. Desta forma será que podemos afirmar que a extinção de uma ou mais destas espécies não afetaria o funcionamento do ecossistema? Provavelmente não! Em geral, espera-se que quanto maior a redundância funcional das espécies, maior a estabilidade de um ecossistema. Esta redundância funcional aumentaria a confiabilidade do funcionamento do ecossistema quando perturbado, funcionando como um tipo de “seguro” contra a perda de espécies. Essa estabilidade pode ser classificada de duas formas principais: como resistência, a capacidade de uma comunidade em evitar uma alteração qualquer, ou como resiliência, a habilidade de uma comunidade em retornar a um estado prévio após ser alterada por algum distúrbio (Harrison, 1979; Carpenter et al., 2001). As espécies redundantes dentro dos chamados ‘grupos funcionais’ podem minimizar o efeito das mudanças no funcionamento do ecossistema, assegurando que este se mantenha estabilizado, mesmo quando as condições ambientais mudam. A compreensão dos fatores que interferem na estabilidade de comunidades ecológicas é fundamental na atualidade, visto a crescente perda de biodiversidade a partir de práticas humanas.

Mesmo espécies sendo redundantes, necessitam de diferentes condições ambientais favoráveis ao seu crescimento e reprodução e, por isso, podem não desempenhar essa “função” simultaneamente. Consequentemente, a perda de espécies (Figura 1) pode não só causar efeitos diretos num ecossistema, mas também afetar sua capacidade de proteção contra futuras mudanças ambientais. Não imaginemos portanto que as ditas ‘redundantes’ funcionam como um ‘Pebolim’, onde cada ‘jogador’ exerce o mesmo movimento dependente de uma ação externa. Cada espécie, mesmo entre as redundantes, possuem peculiaridades e respondem a variações de acordo com seu modo de vida e adaptações ambientais.

O manejo inadequado do campo promovido pelo pastejo excessivo, por exemplo, traz consequências graves para a estabilidade, diversidade e sustentabilidade desse ecossistema através da perda de espécies. Seria como se em uma partida de futebol (ecossistema), diversos jogadores (espécies) fossem submetidos a um exaustivo treino (perturbações) e aos poucos alguns jogadores fossem saindo a ponto de não conseguir mais voltar (extinção). Chegará o momento em que a estabilidade do treino se tornará fragilizada, não importando que cada jogador esteja realizando seu papel na partida (redundância funcional), a resistência do time decairá e a partida acabará.

Agora, em um mundo onde existem mais de sete bilhões de pessoas, com necessidades alimentares e também interesses econômicos, imaginemos como a prática da agricultura homogeneíza, desestabiliza e elimina ecossistemas naturais. A obtenção do máximo de produtividade e rendimento das plantações utiliza um número reduzido de variedades vegetais e exige grandes quantidades de fertilizantes e inseticidas. Os custos desse tipo de atividade leva ao excesso de nutrientes que não foram assimilados e utilizados para produção de biomassa, causando uma possível eutrofização do solo e de corpos d’água mais distantes pelo processo de lixiviação, demonstrado pelas grandes florações de algas que reduzem a biodiversidade aquática. Uma situação de colapso, pois os danos causados por essas práticas não são apenas locais e podem chegar a quilômetros da fonte. Reverter mudanças como essas é um processo muito lento e caro, senão impossível.

Quando falamos em colapso do sistema ambiental, parece uma realidade distante a ser alcançada, mas há 10 ou 15 anos quem diria que em 2015 estaríamos sofrendo com a falta de água no Sudeste do Brasil? Uma coisa é certa, continuar usando os recursos ambientais sem controle e modificando os ecossistemas inconsequentemente pode nos trazer prejuízos mais rápido do que imaginamos.

                                                                                                         Pensamento

Podemos imaginar que a alimentação humana reflete melhor resultado nutritivo quanto mais diversificada for a dieta, já que cada alimento tem fontes diferentes de nutrientes que favorecerá um melhor funcionamento do organismo. De forma comparada observamos que os ecossistemas também funcionam melhor se são mais diversos; os serviços ambientais prestados pelo ecossistema aos humanos dependem da biodiversidade. Portanto os humanos ao causarem a redução da diversidade estão contribuindo para comprometer a sua própria qualidade de vida e bem-estar.

O cenário cinematográfico do filme Interestelar mostra uma humanidade sem mais recursos alimentares, sem nenhuma biodiversidade, incapazes de sustentar nem sequer uma única monocultura e com a única esperança de abandonar a Terra em busca de outro planeta favorável à sua sobrevivência. O nosso cenário real nos encaminha ao desfecho de que, sim, a natureza pode morrer e nós, sim, podemos matá-la.

Glossario

Autores:

Maria Lenice Ventura Diniz (Mestranda; PPG Ecologia – UFRN)

Clarice de Andrade Cordeiro da Silva (Mestranda; PPG Ecologia – UFRN)

Álvaro Carvalho de Lima (Doutorando; PPG Ecologia – UFRN)

Supervisão:

Adriano Caliman (PPGEco/UFRN – Decol)

André Megali Amado (PPGEco/UFRN – DOL)

Renata de Fátima Panosso (PPGEco/UFRN – DMP)

Edição:

André Megali Amado (PPGEco/UFRN – DOL)

Referências:

Cardinale BJ, Palmer MA, Collins L (2002) Species diversity enhances ecosystem functioning through interspecific facilitation. Nature 415: 426-429.

Carpenter, S.; Walker, B.; Anderies, J.M. & Abel, N. (2001). From metaphor to measurement: resilience of what to what? Ecosystems 4: 765-781.

Chapin III FS, Lubchenco J, Reynolds HL (1995) Biodiversity effects on patterns and processes of communities and ecosystems. Pp. 289-301. In Global Biodiversity Assessment, UNEP. Heywood VH (ed.). Cambridge University Press, Cambridge.

Chapin III FS, Sala OE, Burke IC, Grime JP, Hooper DU, Lauenroth WK, Lombard A, Mooney HA, Mosier AR, Naeem S, Pacala SW, Roy J, Steffen WL, Tilman D (1998) Ecosystem consequences of changing biodiversity: experimental evidence and a research agenda for the future. Bioscience 48: 45-52.

Harrison, G.W. (1979). Stability under environmental stress: resistance, resilience, persistence, and variability. The American Naturalist 113: 659-669.

Leakey RE (1996) The sixth extinction: biodiversity and its survival. Wiedenfeld & Nicolson.

Sandra Díaz, Belinda Reyers, Thomas Bergendorff, Lijbert Brussaard, David Cooper, Wolfgang Cramer, Anantha Duraiappah, Thomas Elmqvist, Daniel P. Faith, Gustavo Fonseca, Thomas Hammond, Louise E. Jackson, Cornelia Krug, Anne Larigauderie, Paul W. Leadley, Philippe Le Prestre, Mark Lonsdale, Thomas E. Lovejoy, Georgina M. Mace, Hiroyuki Matsuda, Harold Mooney, Anne-Hélène Prieur- Richard, Mirjam Pulleman, Eugene A. Rosa, Robert J. Scholes, Eva Spehn, Billie L. Turner II, Meryl J. Williams, Tetsukazu Yahara (2012). Biodiversidade e ecossistemas para um Planeta sob pressão. Transição para a sustentabilidade: desafios interligados e soluções. Em Recomendações para Rio+20.

Tilman D, Downing JA (1994) Biodiversity and stability in grasslands. Nature 367: 363-365.

Links:

ftp://ftp.sp.gov.br/ftppesca/REDUCAO_BIODIVERSIDADE_2.pdf

http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-e-a-teoria-do-caos

http://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/extincao-de-especies-terra-pode-estar-no-inicio-de-uma-nova-onda.htm

http://www.ib.usp.br/evosite/evo101/VC1aModesSpeciation.shtml

http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=capitulo_12_questao_ambiental_e_desenvolvimento_sustentavel

http://marte.museugoeldi.br/marcioayres/index.php?option=com_content&view=article&id9&Itemid=10

http://www.inpe.br/igbp/arquivos/Biodiversity_FINAL_LR-portugues.pdf

www.planetunderpressure2012.net