Posts Tagged ‘ciclo do carbono’

E se não houvesse lagos?

13 de janeiro de 2015

Além de servirem para você andar no jet ski do seu primo rico ou para você pescar com o seu pai, para que mais servem os lagos? Os lagos estão presentes na história e no cotidiano de povos de todo o planeta. Eles fornecem alimentos, água, recreação e até inspiração religiosa ao ser humano. Eles também são fundamentais para a vida de um sem número de espécies de plantas, animais e até de seres que a gente nem vê – organismos microscópicos como algas e bactérias. Contudo, existe um aspecto sobre os lagos que pouca gente conhece e que iremos apresentar aqui por meio de um exercício mental. Os lagos são muito importantes para o balanço global de carbono, uma vez que eles podem lançar grandes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera e influenciar no clima do Planeta, como já discutimos no post anterior (“Rios e lagos e o efeito estufa: importantes fontes de gás carbônico para a atmosfera). Agora, vamos imaginar se todos os rios fluíssem direto para o mar, sem nenhum lago no caminho, o que mudaria no fluxo de matéria orgânica no planeta! Aceitam o exercício? Para simplificar a discussão, nós vamos tratar como “lago” qualquer acumulo d’água no continente, incluindo lagoas, represas, lagunas, etc.

Exercício Metal: Experimento de microcosmo - escala experimental = Planeta. (fonte: http://raphalss.files.wordpress.com/2012/05/planeta-terra.jpg)

Exercício Metal: Experimento de microcosmo – escala experimental = Planeta.
(fonte: http://raphalss.files.wordpress.com/2012/05/planeta-terra.jpg)

Alguns cientistas mostraram recentemente que, apesar de sua área superficial reduzida globalmente, os lagos podem emitir quase tanto gás carbônico quanto o que é sequestrado pelos oceanos (ver referências ao final). Isso é bastante surpreendente e revela um papel ignorado até pouco tempo atrás: o dos lagos como biorreatores capazes de processar grandes quantidades de matéria orgânica. Esses ambientes têm se mostrado tipicamente supersaturados, com concentrações de gás carbônico (CO2) maiores do que a atmosfera. A produção desse gás carbônico vem da fotodegradação (degradação de moléculas orgânicas na água pela ação da radiação solar) de compostos orgânicos e da respiração dos seres vivos presentes no lago, com participação importante dos microrganismos responsáveis pela decomposição da matéria orgânica (oxidação biológica da matéria orgânica pela qual o produto final é geralmente o CO2). Tal matéria orgânica pode ter sido formada no próprio lago, pela fixação de gás carbônico pelas algas e macrófitas (plantas aquáticas), mas uma parcela significativa dela tem origem terrestre, chegando aos lagos por meio dos rios ou por percolação após passarem por um processo de decomposição nos solos e nos próprios rios.

Parte da matéria orgânica que é acumulada nos lagos, proveniente da bacia hidrográfica, é considerada refratária, isto é, de difícil decomposição. Ela encontra nos lagos condições necessárias para a finalização do processo de decomposição. Isso acontece principalmente porque, diferentes dos rios, os lagos retêm a água por um período mais longo. É válido especular, portanto, que sem os lagos, essa matéria talvez não tivesse tempo suficiente para processamento e acabaria sendo transportada ao oceano, onde poderia ser parcialmente processada, aumentando a atividade metabólica nesse ecossistema, e, em sua maior parte, estocada no leito do oceano – como acontece com grande parte da matéria que entra nesse ambiente. O processamento que deixou de acontecer nos lagos e que não se completou no oceano, resultaria numa menor emissão de carbono para a atmosfera, que consequentemente teria uma menor quantidade desse elemento.

A alteração no ciclo global do carbono poderia gerar mudanças na temperatura do planeta e até na taxa de produção primária, embora seja difícil prever com exatidão essas mudanças. O fato é que nós abordamos um aspecto bem pontual do papel dos lagos, que tem sido pouco discutido. Mas, se levarmos em conta outros aspectos relevantes, como a contribuição dos lagos para o volume de água evaporada ou para a manutenção da biodiversidade, é inevitável a conclusão de que teríamos um planeta totalmente diferente. É claro que você não precisa se preocupar com um repentino desaparecimento dos lagos. Eles continuarão existindo e desempenhando seus papéis, inclusive seu relevante papel no ciclo do carbono, que é um processo natural, diferentemente, por exemplo, da emissão de carbono pela queima de combustíveis fósseis. Esta última é resultado das nossas atividades e seu controle está em nossas mãos. Como você deve saber, isso está afetando o clima do planeta. Ou será que não é bem assim? Há um post recente neste blog sobre esse tema polêmico. Leia aqui.

 

Nota: Esse é o último artigo da série produzida pelos alunos do curso de Limnologia (2014-2) do Programa de Pós-Gradação em Ecologia da UFRN.

 

Autores:

Pedro Junger (Mestrando; PPG Ecologia – UFRJ)

Barbara Precila Bezerra (Mestranda; PPG Ecologia – UFRN)

Dhalton Ventura (Doutorando; PPG Ecologia – UFRN – Especialista em Recursos Hídricos; Agência Nacional de Águas)

Colaborações:

Rafael de Carvalho (Mestrando; PPG Ecologia e Evolução – UFS)

Luana Rezende (Mestranda; PPG Ecologia e Evolução – UFS

Arthur Cruz (Mestrando; PPG Ecologia e Evolução – UFS)

André M. Amado (UFRN/PPG Ecologia – DOL)

Supervisão:

André M. Amado (UFRN/PPG Ecologia – DOL)

 

Referências:

Cole, J. J., Prairie, Y. T., Caraco, N. F., McDowell, W. H., Tranvik, L. J., Striegl, R. G., Duarte, C. M., Kortelainen, P., Downing, J. A., Middelburg, J. J. & Melack, J. 2007. Plumbing the Global Carbon Cycle: Integrating Inland Waters into the Terrestrial Carbon Budget. Ecosystems, 8: 862–870.

Marotta, H., Duarte, C. M., Sobek, S. & Enrich-Prast, A. 2009a. Large CO2 disequilibria in tropical lakes. Global Biogeochemistry Cycles, 23: GB4022.

Tranvik, L. J., Downing, J. A., Cotner, J. B., Loiselle, S. A., Striegl, R. G., Ballatore, T. J., Dillon, P., Finlay, K., Fortino, K., Knoll, L. B., Kortelainen, P. L., Kutser, T., Larsen, S., Laurion, I., Leech, D. M., McCallister, S. L., McKnight, D. M., Melack, J. M., Overholt, E., Porter, J. A., Prairie, Y., Renwick, W. H., Roland, F., Sherman, B. S., Schindler, D. W., Sobek, S., Tremblay, A., Vanni, M. J., Verschoor, A. M. Von Wachenfeldt, E. & Weyhenmeyer, G. A. 2009. Lakes and reservoirs as regulators of carbon cycling and climate. Limnology and Oceanography, 54(6): 2298–2314.

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Rios e lagos e o efeito estufa: importantes fontes de gás carbônico para a atmosfera.

14 de novembro de 2014

Muito tem sido falado nos meios de comunicação sobre como a poluição e a emissão de gases poluentes contribuem para o aquecimento global. As mudanças climáticas globais, decorrentes da intensificação do efeito estufa, têm o gás carbônico (CO2) como o principal vilão. A emissão do CO2 para a atmosfera é fortemente associada à poluição, sobretudo a resultante da queima de combustíveis fósseis através de grandes indústrias, carros, etc. (http://aquecimento-global-no-brasil.info/) Você sabia que rios e lagos também são importantes lançadores de CO2 para a atmosfera? Sabia ainda, que isso é um fenômeno natural? O Carbono (na forma de CO2), é um componente natural da atmosfera (menos de 1% de sua composição) (Fig. 1) e também está presente em ambientes aquáticos continentais e oceânicos, que participam ativamente do Ciclo do Carbono na biosfera (http://www.infoescola.com/biologia/ciclo-do-carbono/ e Cole, 2007).

Fig. 1 texto 6

Figura 1: Composição percentual de gases na atmosfera terrestre. Adaptado de: http://agfdag.wordpress.com/2009/03/10/quanto-co2-ha/. Acesso em 27/10/2014.

O ciclo do carbono é conhecido principalmente pela troca constante de CO2 entre florestas, solos, o oceano (reservatório de gás carbônico) e a atmosfera e pelo ciclo realizado pelas cadeias tróficas, na qual os vegetais (organismos autótrofos) absorvem CO2 da atmosfera, incorporam em sua biomassa e transferem para os níveis tróficos superiores (e.g. herbívoros, carnívoros, etc.; http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Ecologia/Cadeiaalimentar.php) formados por organismos heterótrofos. Por sua vez, todos os organismos respiram e lançam parte do CO2 de volta para a atmosfera. Porém, um componente muito importante do ciclo do carbono foi sistematicamente ignorado por muito tempo: os ambientes aquáticos continentais (rios, riachos, lagos, lagoas, estuários, reservatórios, etc. (http://www.infoescola.com/biologia/ciclo-do-carbono/). Estudos recentes demonstram que esses ambientes são responsáveis pelo lançamento de cerca de 70% do CO2 emitido de forma natural para a atmosfera, mesmo que representem apenas cerca de 20% da superfície dos continentes (Raymond et al. 2013).

Historicamente os ambientes aquáticos continentais eram apenas reconhecidos como “transportadores” de C do continente (por exemplo, a partir das florestas, solos, cidades, etc.) para o oceano. Entretanto sabe-se que durante este percurso há uma série de processos complexos de transformações e perdas (armazenamento no sedimento, mineralização e troca de C com a atmosfera, etc.) os quais podem sedimentar carbono (estoca-lo na lama no fundo dos ambientes), mas sobretudo emitir grandes quantidades de CO2 e gás metano (CH4). Esses processos estão exemplificados na figura 2.

Figura 2 Texto Arthur, e cia 3

Figura 2: Transformações do carbono em corpos d’água continentais. Setas cheias indicam transformações do carbono e setas tracejadas indicam fluxo na cadeia trófica. A seta vermelha indica o fluxo de água e materiais para jusante do ambiente (sejam rios ou lagos de inundação). Figura adaptada de Esteves et al. 2011.

Estudos recentes mostram que apenas cerca de 30% de todo carbono que chega nos ecossistemas aquáticos continentais chegam aos oceanos. Quase 50% desse carbono é emitido para a atmosfera pelos processos de degradação e os 20% restantes são estocados nos sedimentos. Desse último, parte pode ser novamente emitido para a atmosfera, principalmente na forma de CH4 a partir de sedimentos inorgânicos. Os valores absolutos em Pg (equivalente a 10E5g) de carbono estão representados na figura 3.

Figura 3 texto 1

Figura 3: Papel dos ecossistemas aquáticos continentais no fluxo e transformação de carbono provenientes dos ecossistemas terrestres para a atmosfera e oceanos. Figura adapatada de Tranvik et al 2009 e atualizada com dados de Raymond et al 2013. Valores em Pg (equivalente a 10E5g).

Mesmo diante de tamanha importância para o ciclo global do carbono, notamos que os ecossistemas aquáticos continentais são ignorados ou sub-representados nas figuras dos livros texto de Ecologia, como Odum (2004, p. 150) e Ricklefs (2010, p. 433). Diante da grande importância das contribuições das águas continentais para o ciclo do carbono, fica evidente uma necessidade de revisão e atualização dessas imagens, uma vez que representações visuais tem papel relevante para a aprendizagem.

E se não houvessem os ecossistemas aquáticos continentais? Como seria o ciclo global do carbono? Essas perguntas ficam para o próximo post.

Nota: Esse texto foi produzido a partir de leituras e discussões realizadas durante o curso de Limnologia do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRN, em outubro de 2014. Nas próximas semanas serão publicados em sequência os demais textos produzidos.

Autores:

Rafael de Carvalho (Mestrando; PPG Ecologia e Evolução – UFS)

Luana Rezende (Mestranda; PPG Ecologia e Evolução – UFS

Arthur Cruz (Mestrando; PPG Ecologia e Evolução – UFS)

Colaborações:

Pedro Junger (Mestrando; PPG Ecologia – UFRJ)

Barbara Precila Bezerra (Mestranda; PPG Ecologia – UFRN)

Dhalton Ventura (Doutorando; PPG Ecologia – UFRN – Especialista em Recursos Hídricos; Agência Nacional de Águas)

André M. Amado (UFRN/PPG Ecologia – DOL)

Supervisão:

André M. Amado (UFRN/PPG Ecologia – DOL)

Referências:

http://www.infoescola.com/biologia/ciclo-do-carbono/

http://camada-de-ozonio.info/

http://aquecimento-global-no-brasil.info/

http://aquecimento-global-no-brasil.info/consequencias-do-aquecimento-global.html

http://agfdag.wordpress.com/2009/03/10/quanto-co2-ha/

Cole, J. J., Prairie, Y. T., Caraco, N. F., McDowell, W. H., Tranvik, L. J., Striegl, R. G., Melack, J. (2007). Plumbing the global carbon cycle: Integrating inland waters into the terrestrial carbon budget. Ecosystems, 10(1), 171-184.

Marotta, H., Duarte, C. M., Sobek, S., Enrich-Prast, A. (2009). Large CO2 disequilibria in tropical lakes. Global Biogeochemical Cycles, 23.

Pacheco, F. S.; Roland, F. Downing, J. A. (2014). Eutrophication reverses whole-lake carbon budgets. Inland Waters, 4, 41-48.

Odum, E. P. Princípios e conceitos relacionados aos ciclos biogeoquímicos: estudos quantitativos dos ciclos biogeoquímicos. In: _____ Fundamentos da Ecologia. 6. ed. Lisboa, Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

Ricklefs, R. E. Caminho dos elementos nos ecossistemas. In: _____ A economia da natureza. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p. 544, 2010.

Tranvik, L., Downing, J. A., Cotner, J. B., Loiselle, S. A., Striegl, R. G., Ballatore, T. J., Weyhenmeyer, G. A. (2009). Lakes and reservoirs as regulators of carbon cycling and climate. Limnology and Oceanography, 54(6, part 2), 2298-2314.

Mudanças climáticas: verdade ou mito?

3 de novembro de 2014

Todos percebem que tem algo fora do comum acontecendo? Anos sem chuva, calor e frio fora de época, calmarias e ventanias inesperadas. A seca no nordeste não é novidade, mas em São Paulo (sobre a seca leia aqui)? A meteorologia estaria mais confusa do que nunca? Serão as famosas Mudanças Climáticas? Sobre esse tema, existem duas linhas de pensamento que estão em constante debate.

A primeira linha de pensamento, que é a mais popular, defende que as atividades humanas têm favorecido o lançamento de gases estufa na atmosfera, juntamente com o desmatamento, desencadeando mudanças drásticas no clima do Planeta. Fiz algumas considerações a esse respeito (efeito estufa e mudanças climáticas) no post “Fotodegradação no topo do Mundo”. Essa linha se baseia em dados que mostram o acúmulo de gás carbônico (dióxido de carbono – CO2) na atmosfera ao longo do último século. O estudo do gás carbônico atmosférico que foi apreendido no gelo dos polos durante séculos e milênios, em comparação com os níveis atmosféricos atuais (isso mesmo, o gelo é uma linha do tempo na história do Planeta, veja mais aqui), também indicam que o dióxido de carbono na atmosfera encontra-se em níveis acima do esperado. Por fim, modelos matemáticos demonstram que o aumento do dióxido de carbono na atmosfera decorre das nossas ativas transformações na biosfera (Dow & Downing 2007). Dentre elas, a queima de combustíveis fósseis com a emissão de gases estufa e, o grande desmatamento de ecossistemas naturais, reduzindo a retenção de carbono nas plantas (na biomassa). Tem um excelente texto sobre esse assunto no site da Wikipedia.

A segunda linha de pensamento é mais cética em relação aos eventos climáticos extremos. Segundo esse grupo de pesquisadores, o Planeta já passou por momentos com concentrações de dióxido de carbono mais elevadas que agora e, por motivos naturais, já que ainda não estávamos por ai. Realmente, o Planeta já teve 20 vezes mais dióxido de carbono na atmosfera do que atualmente, há cerca de 500 milhões de anos. Esse gás teria sido reduzido na atmosfera ao longo desse tempo devido ao surgimento das vegetações e respectivo acúmulo de carbono no solo (argilas), nas próprias florestas e a formação dos depósitos de carvão (Ricklefs 2010). Esse grupo destaca que o Sol, fonte primária de energia ao Planeta, apresenta fases de maior emissão de radiação, que estaria ocorrendo nesse momento. Ainda, defendem que eventos sísmicos que emitem ondas de calor a cada 600 mil anos, estariam em andamento. Vários outros argumentos contra o aquecimento global são reportados e discutidos na literatura e na internet. Veja alguns dos principais aqui.

Global warm - blog Anizio

Eu tenho estudado o ciclo do elemento carbono em ecossistemas aquáticos há mais de 12 anos. Particularmente, acredito na capacidade dos seres vivos interagirem e alterarem o meio em que vivem; a Ecologia trata exatamente disso. Portanto, acredito que os padrões climáticos imprevisíveis que estamos experimentando sejam decorrentes (ao menos em parte) de atividades humanas. Mesmo que não fossem diretamente, é digno pensarmos que dividimos o Planeta com outros seres vivos e, por isso, temos grande responsabilidade sobre ele. Se a emissão de gás carbônico tem potencial para afetar negativamente a dinâmica climática, mesmo que isso possa se tornar irrelevante diante de eventos naturais não controláveis, como o aumento da energia emitida pelo Sol, por que iriamos negligenciar a regulação dessa atividade de emissão? Por que negligenciar que as florestas têm potencial de regulação climática, seja na escala regional, além da biota que abriga, mesmo que não afetasse o clima global? Seria irresponsabilidade diante de tanto conhecimento que já foi gerado a esse respeito.

Esse texto foi motivado por reflexões e discussões ocorridas durante o curso de Limnologia do Programa de Pós-graduação em Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no mês de outubro de 2014. Ainda em decorrência dessas discussões, nas próximas semanas serão publicados textos produzidos por colaboração entre os alunos e os professores da disciplina. Aguardem, confiram e comentem!

Referencia:

Dow & Downing (2007) O Atlas da Mudança Climática: O Mapeamento Completo do Maior Desafio do Planeta. Ed. Publifolha.

Mais Links Interessantes:

https://sites.google.com/site/thepaleoceneeocenethermalmaxim/2-paleocene-climate/why-earth-s-climate-is-different-today-1/ice-ages-and-the-role-of-co2

http://en.wikipedia.org/wiki/Carbon_dioxide_in_Earth’s_atmosphere

Autor: André M. Amado (Depto. Oceanografia e Limnologia; PPG Ecologia – UFRN)

Ilustração: Anizio Souza Andrade (Graduando em Ecologia – UFRN)

Revisão de Língua Portuguesa: Bruna Q. Vargas (Cultura Inglesa, Natal-RN)

Foto-degradação no topo do mundo!

31 de agosto de 2014

Após algumas décadas, os estudos sobre a foto-degradação do carbono orgânico dissolvido (processo de degradação de compostos orgânicos pela ação física da radiação solar) em ambientes aquáticos volta, literalmente, ao topo do mundo.

Na década de 80 chamou-se a atenção para a redução das concentrações de ozônio (O3) na estratosfera. A Camada de Ozônio filtra parte dos raios ultravioleta B (UV-B; 280-320 nm) provenientes do Sol, reduzindo a sua incidência sobre a superfície do Planta Terra. Por isso, a redução da camada de ozônio (resultante da liberação de gases utilizados nos sistemas modernos de refrigeração) teria profundos efeitos danosos à saúde das pessoas, pelo aumento da incidência de problemas como câncer de pele. Iniciou-se assim, uma corrida mundial para reverter esse quadro.

Ao mesmo tempo, como os raios ultravioletas também degradam parte do carbono orgânico dissolvido na água, principalmente aquele formado nos ambientes terrestres, o processo de fotodegradação ganhou destaque entre os cientistas. Pesquisas focaram no papel da fotodegradação para o funcionamento dos ecossistemas (por exemplo sobre o metabolismo microbiano), até seus possíveis efeitos para a emissão de dióxido de carbono (gás carbônico – CO2) para a atmosfera. Por exemplo, além de mineralizar o carbono orgânico formando dióxido de carbono (CO2), a foto-degradação também transforma o carbono alterando a velocidade com que as bactérias heterotróficas (microorganismos recicladores) podem mineralizá-lo (Farjalla et al. 2009).

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Gráfico de acúmulo de CO2 na atmosfera (Mauna Loa Observatory (http://www.esrl.noaa.gov/gmd/ccgg/trends/).

Trabalhos recentes demonstraram que os ambientes aquáticos são importantes elementos no ciclo global do carbono, pois transformam, emitem para a atmosfera e transportam para os oceanos muitas toneladas de carbono por ano (Cole et al 2007, Tranvik et al, 2009, Raymond et al 2013). Nesse sentido, diversos estudos avaliaram a importância relativa da fotodegradação e da respiração bacteriana (dois importantes processos de decomposição em ecossistemas aquáticos) para a emissão de CO2 para atmosfera, como contribuintes na intensificação do efeito estufa.

Desenho esquemático: Radiação solar reflete na Terra e emite radiação infravermelha que aquece a atmosfera.

Desenho esquemático: Radiação solar reflete na Terra e emite radiação infravermelha que aquece a atmosfera.

Estudos sugeriram que na da região temperada do Globo (latitudes superiores a 22° N e S), o processo de fotodegradação era pouco relevante (< 10%) para a produção total de CO2 por lagos em comparação com a mineralização pelas bactérias (Jonsson et al 2001). Juntamente com a estabilização da camada de ozônio, a suposta pouca relevância da fotodegradação ajudou a diminuir o interesse no tema. Alguns anos mais tarde, um dos trabalhos da minha dissertação de mestrado (Amado et al 2006) indicou que a fotodegradação poderia ser equivalente à mineralização bacteriana em lagos tropicais da região amazônica. Mesmo assim, desde então, poucos estudos avaliaram a interação da fotodegradação com as emissões de CO2.

Na semana passada (22 de agosto de 2014), a pesquisadora Rose Cory (da Universidade de Michigan) e seus colaboradores publicaram um artigo (Cory et al. 2014) na revista Science, de um estudo de mais de 3 anos de duração sobre a fotodegradação e a degradação bacteriana em diversos ambientes aquáticos no Alaska (ártico). De acordo com esse estudo, nos ambientes aquáticos daquela região de elevadas latitudes, a fotodegradação pode corresponder entre 70 e 95% de todo CO2 produzido nesses ecossistemas, sendo até dezenas de vezes superior à mineralização pelas bactérias. Ao contrariar os paradigmas atuais, esse estudo reabre a discussão sobre o tema. Tendo em vista que o aumento global das temperaturas previsto para as regiões polares deve expor grandes quantidades de matéria orgânica pelo degelo, a fotodegradação deverá ser responsável por emitir grandes quantidades de CO2 para a atmosfera, contribuindo ainda mais para o agravamento do efeito estufa.

Referências:

Amado, A. M., Farjalla, V. F., Esteves, F. D., Bozelli, R. L., Roland, F., & Enrich-Prast, A. (2006). Complementary pathways of dissolved organic carbon removal pathways in clear-water Amazonian ecosystems: photochemical degradation and bacterial uptake. FEMS Microbiology Ecology, 56(1), 8-17.

Cole, J. J., Prairie, Y. T., Caraco, N. F., McDowell, W. H., Tranvik, L. J., Striegl, R. G., . . . Melack, J. (2007). Plumbing the global carbon cycle: Integrating inland waters into the terrestrial carbon budget. Ecosystems, 10(1), 171-184.

Cory, R. M., Ward, C. P., Crump, B. C., & Kling, G. W. (2014). Sunlight controls water column processing of carbon in arctic fresh waters. Science, 345(6199), 925-928. doi: 10.1126/science.1253119

Jonsson, A., Meili, M., Bergstrom, A. K., & Jansson, M. (2001). Whole-lake mineralization of allochthonous and autochthonous organic carbon in a large humic lake (Ortrasket, N. Sweden). Limnology and Oceanography, 46(7), 1691-1700.

 

Raymond, P. A., Hartmann, J., Lauerwald, R., Sobek, S., McDonald, C., Hoover, M., . . . Guth, P. (2013). Global carbon dioxide emissions from inland waters. Nature, 503, 355-359. doi: 10.1038/nature12760

Tranvik, L., Downing, J. A., Cotner, J. B., Loiselle, S. A., Striegl, R. G., Ballatore, T. J., . . . Weyhenmeyer, G. A. (2009). Lakes and reservoirs as regulators of carbon cycling and climate. Limnology and Oceanography, 54(6, part 2), 2298-2314.

 

Autor: André M. Amado (Depto. Oceanografia e Limnologia; PPG Ecologia – UFRN)

Revisão de Língua Portuguesa: Bruna Q. Vargas (Cultura Inglesa, Natal-RN)