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Baixando a guarda: Como nós influenciamos as invasões biológicas

29 de junho de 2015

Texto escrito por: 

Isabela Oliveira, Júlia Tovar, Leonardo Teixeira & Marcos Brito (alunos do curso de Ecologia de Ecossistemas [2015-1] do PPGEco-UFRN)

O escritor francês Victor Hugo certa vez proferiu: “Que triste é pensar que a natureza fala e a espécie humana não a escuta”. Essa afirmação pareceu uma verdade imutável por séculos e, assim, as atividades humanas causaram grandes modificações ambientais globais que, por sua vez, refletiram no clima e na biodiversidade. Contudo, hoje, ao reconhecermos as consequências de nossas ações na natureza, damos o primeiro passo na busca por soluções.

Dentre os impactos causados pelo ser humano no planeta, destacam-se as mudanças climáticas, o aumento na emissão e deposição de nitrogênio nos ecossistemas e a perda de habitats. Tais ações afetam a distribuição das espécies e, portanto, podem influenciar as invasões biológicas. Mas, o que são espécies invasoras? São organismos que se instalam e proliferam em ecossistemas onde não existiam anteriormente, podendo causar prejuízos às comunidades nativas e ao ambiente. Possuem alta taxa de dispersão, adaptação e crescimento, principalmente pela ausência de predadores naturais (1, 2, 3). Você pode pesquisar sobre espécies invasoras na sua região clicando aqui.

Mas como exatamente estamos “baixando a guarda” e facilitando a invasão de espécies? Para responder a essa pergunta devemos esclarecer que o sucesso das espécies invasoras depende, também, da “saúde” dos ambientes invadidos (4, 5). Por exemplo, algumas pesquisas mostram que ecossistemas que tiveram decréscimo de sua diversidade por causa de agentes estressores se tornaram mais suscetíveis às invasões biológicas (6).

A temperatura é um fator limitante para a sobrevivência, crescimento e reprodução de plantas e muitos animais. Segundo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) espera-se que o aumento na liberação de gases estufa, sobretudo pelo desmatamento e pela queima de combustíveis fósseis, faça com que a temperatura global aumente de 1 a 3,5 °C no próximo século. Isto irá influenciar diretamente na distribuição das espécies, podendo estimular invasões de organismos tropicais para regiões temperadas (7). Além das mudanças climáticas globais, alterações nos ciclos biogeoquímicos podem agir sinergicamente e contribuir para o sucesso das invasões biológicas.

                                        Caixa 1: Os ciclos biogeoquímicos e a ação humana.

Caixa 1

As alterações causadas nos ciclos biogeoquímicos, principalmente do nitrogênio (N) e do fósforo (P) causam mudanças na composição de espécies, gerando perdas de biodiversidade em ecossistemas terrestres, como em florestas. Além disso, tais alterações afetam a qualidade dos ecossistemas aquáticos adjacentes, levando à eutrofização artificial de lagos. Isto os torna mais suscetíveis às invasões por espécies exóticas, especialmente aquelas mais eficientes no uso dos habitats e exploração dos recursos no ambiente modificado pelos agentes estressores.

Figura 2: Representação esquemática do processo de eutrofização (Fonte:http://pt.slideshare.net/nunocorreia/alterao-da-qualidade-da-gua-426935).

Figura 2: Representação esquemática do processo de eutrofização (Fonte:http://pt.slideshare.net/nunocorreia/alterao-da-qualidade-da-gua-426935).

Agora que sabemos como podemos facilitar as invasões, devemos nos questionar sobre os motivos de tamanha preocupação. Espécies invasoras podem causar sérios impactos no funcionamento dos ecossistemas. Uma espécie nova, eficiente na competição por recursos, alcançando um ambiente que não está saudável, pode levar à extinção local de populações nativas. Este processo pode causar rompimento de interações biológicas importantes para a manutenção da estrutura ecológica (8). Além disso, os invasores podem ter efeitos na economia e na saúde pública (veja exemplos de espécies invasoras e suas consequências no quadro). Portanto, são vários os motivos para ficarmos preocupados com as invasões biológicas e sua influência no futuro do planeta. Nossas ações têm impacto direto na distribuição das espécies na Terra. Dessa forma, é de nossa responsabilidade tentar reverter ou diminuir os impactos causados, seja criando novos métodos produtivos, de manejos, e leis ambientais. A execução de programas de Educação Ambiental se tornam cada vez mais úteis para sensibilizar a sociedade sobre tais necessidades.

Quadro 1: As espécies invasoras mais bem sucedidas no mundo e alguns de seus efeitos (9).

Quadro 1: As espécies invasoras mais bem sucedidas no mundo e alguns de seus efeitos (9).

Autores:

Isabela Oliveira, Júlia Tovar, Leonardo Teixeira & Marcos Brito (alunos do curso de Ecologia de Ecossistemas [2015-1] do PPGEco-UFRN)

Supervisão: Renata Panosso (Departamento de Microbiologia e Parasitologia; PPGEcologia-UFRN)

Edição: André M. Amado (Departamento de Oceanografia e Limnologia; PPGEcologia-UFRN)

Referências Bibliográficas

  1. Rejmanek M. “What makes a species invasive?” In: Pyšek P., Prach K., Rejmanek M. & Wade M. (eds.) Plant Invasions. SPB Academic Publ., Amsterdam, p. 3-13, 1995.
  1. Richardson D.M., Pyšek P., Rejmanek M., Barbour M.G., Panetta D. & West C.J. “Naturalization and invasion of alien plants: concepts and definitions”. Diversity and Distributions, Vol. 6, p. 93-107, 2000.
  1. Simberloff D., Martin J.L., Genovesi P., Maris V., Wardle D.A., Aronson J., Courchamp F., Galil B., García-Berthou E., Pascal M., Pyšek P., Sousa R., Tabacchi E. & Vilà M. “Impacts of biological invasions: what’s what and the way forward.”Trends in Ecology &Evolution, Vol. 28, N° 1, p. 58-66, 2013.
  1. Thuiller W., Richardson D.M. & Midgley G.F. “Will climate change promote alien plant invasions?” Ecological Studies, Vol. 193, W. Nentwig (Ed.) Biological Invasions, Springer-Verlag Berlin Heidelberg, p. 1-16, 2007.
  1. Macdougall A.S. & Turkington R. “Are invasive species the drivers or passengers of change in degraded ecosystems?” Ecology, Vol. 86, N° 1, 2005, p. 42-55.
  1. Didham R.K., Tylianakis J.M., Gemmell N.J., Rand T.A. & Ewers R.M. Interactive effects of habitat modification and species invasion on native species decline. Trends in Ecology and Evolution, Vol. 22, N° 9, p. 489-496.
  1. Vitousek P.M., D’Antonio C.M., Loope L.L. & Westbrooks R. “Biological invasions as global environmental change.” American Scientist, Vol. 84, p. 468-478, 1996.
  1. Gurevitch J. & Padilla D.K. “Are invasive species a major cause of extinctions?” Trends in Ecology and Evolution, Vol. 19, N° 9, p. 1-5, 2004.
  2. Lowe S., Browne M., Boudjelas S., De Poorter M. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species. A selection from the Global Invasive Species Database. The Invasive Species Specialist Group (ISSG), the World Conservation Union (IUCN), 12pp, 2000.