Archive for maio \12\UTC 2014

A escrita e a ciência.

12 de maio de 2014

No post anterior (O que faz uma defesa de tese ser chata ou instigaste? Reflexões), publicado no dia 08 de abril de 2014, falei sobre a defesa de tese (mestrado e doutorado) como sendo o auge da formação de um mestre ou doutor. Formalmente é isso mesmo! Entretanto, o que coroa de fato o cientista é quando seu trabalho é publicado em revista ou jornal científico e passa a fazer parte então, do quebra-cabeça do conhecimento. Uma tese defendida, mas sem publicações, não passa de um livro que dá orgulho, mas que vai ficar empoeirado na nossa estante (ou no HD como PDF). Um trabalho publicado, é passível de ser utilizado para a construção de novos conhecimentos científicos.

 O quebra-cabeça do conhecimento.

 

Falando de científico, quem nunca assistiu a algum anúncio de televisão de pasta de dente ou de sabonete dizendo que é cientificamente comprovado que aquele produto elimina 99% das cáries ou das bactérias? Nesse caso, o “científico” é utilizado como um selo de garantia de que o produto é realmente bom, apesar de não querer necessariamente significar isso. O 99% é uma forma de mostrar que a eficiência é alta, já que é “científico”, o que na realidade é um nível de significância de um teste estatístico. O verdadeiro significado de “científico” passa pela utilização de um conjunto de regras (metodologia científica) para se estudar algum fenômeno.

Cientificamente comprovado!

 

Ruben Alves, escritor, filósofo, teólogo (dentre inúmeras outras qualificações) exemplificou a ciência como uma rede que pesca um grupo específico de peixes. Outras redes, como da Teologia por exemplo, pega outros tipos (ou as vezes os mesmos tipos) de peixes. De fato, a coleta de dados de um trabalho científico (ecologia aquática por exemplo, mesmo que não seja com peixes) é trabalhosa como uma pescaria. Tanto que os alunos (normalmente de graduação ou mestrado) costumam dizer depois de mais de um ano: “Já coletei todos os dados. Agora só falta analisar e escrever!”. Doce ilusão! Agora que vem o trabalho mais difícil: revelar um novo conhecimento.

Apesar da poesia com a qual Rubem Alves descreveu a ciência, a escrita científica é comumente árida, pois não pode ser ambígua. Entretanto, normalmente tem a identidade de quem escreve. A escrita científica deve ser objetiva, precisa e, preferencialmente, em inglês. Isso evita o efeito de má interpretação e “telefone sem fio”, para a produção de conhecimentos mais sólidos. Como normalmente espaço e tempo são dinheiro, tamanho é documento! Como disse o matemático Francês do século 17, Blaise Pascal: “Se tivesse mais tempo, escreveria uma carta mais curta”; ser objetivo e direto sem perder informação é difícil. Escrever bem, demora!

Atualmente, um trabalho científico após ser escrito, é submetido a avaliação de qualidade e originalidade por cientistas da áreas afins, para publicação em dois tipos básicos de jornais científicos: aqueles que vendem a informação e, por isso publicam de graça (mas cobram para quem quiser ler; revistas como “Science” e “Nature”) e, aqueles que cobram para publicar, mas a leitura é grátis (open access; como as revistas dos grupos da “Plos” e da “Frontiers”). Este último tipo tem é uma nova tendência, que considero muito interessante: informação disponível para quem tiver interesse. Ainda, em muitos dos casos, os escritores tomam conhecimento de quem são os revisores. Assim, as revisões são mais honestas e a discussão mais saudável. Quem ganha é a ciência.

Artigos de leitura grátis

 

Grande responsabilidade produzir conhecimentos, ainda mais porque a Sociedade credita credibilidade. Escrever de forma objetiva e com identidade, numa língua estrangeira, ter humildade para as críticas e ter conhecimento e maturidade para rebatê-las quando necessário é o auge do trabalho científico e o desafio a ser encarado. E ai alunos, vamos publicar?

 

André M. Amado (Depto. Oceanografia e Limnologia; PPG Ecologia – UFRN)

Revisão de Língua Portuguesa: Bruna Q. Vargas (Cultura Inglesa, Natal-RN)